domingo, 26 de janeiro de 2014

O CEERIA

O CEERIA está no centro de Alcobaça. Visitei-o num destes dias. Sob chuviscos que teimavam em cair, percorri os vários espaços interiores e exteriores, acompanhada pelos seus dirigentes e duas técnicas. Fiquei a saber que este Centro de Educação Especial, Reabilitação e Integração de Alcobaça apoia cerca de 500 pessoas com deficiências e incapacidade e suas famílias. A sua importância como estrutura social no concelho é de tal ordem grandiosa que qualquer descrição que dela pudesse fazer seria insuficiente. Por isso falo apenas do sol que encontrei em cada rosto com que me cruzei. Falo do João Carreira, e da forma como me apresentou os vestidos que concebe para as passagens de modelos. São vestidos feitos de mar, de areia e de folhas. Autênticas obras de arte. Falo também da Carolina, que é uma grande atleta, a correr e a cantar na passadeira do ginásio. E da Tânia, que me emprestou a tartaruga que tinha junto do coração na sala de relaxamento. Não me posso ainda esquecer do grupo fantástico que conduzia uma canoa na sala de ginástica. O Rodrigo ia à frente e segurava o remo. Atrás, a empurrar, a Ana Sofia, a Mónica e o Paulo Zé. De repente a canoa partiu-se. A professora prontamente uniu as partes e a aventura continuou. Conheci ainda o Vânio, a festejar os dezoito anos na piscina terapêutica. Depois de um mergulho, batemos palmas. Fantástico. Como ficou feliz. Na oficina de Azulejo, colada numa porta, a notícia: o CEERIA alcançou o 1.º lugar de escultura no 6.º Concurso Nacional “Reabilitar através da Arte”, com um trabalho intitulado “A bicicleta”. Outros prémios virão, a adivinhar pelos projetos que os vários artistas ali faziam.
Foram estes, entre muitos outros, os rostos de sol que encontrei num dia chuvoso e nublado.
No final, recebi o boletim informativo do CEERIA, onde li, na primeira página, o seguinte: “muitos dos jovens a quem dirigimos a nossa atenção não têm os corpos ágeis e vigorosos, que todos nos forçamos por possuir. Algumas destas pessoas têm corpos que não queremos olhar, corpos que nos perturbam, dos quais nos afastam porque nos fazem sofrer… e todos nós temos medo do sofrimento”. Mas também li que “se nos permitirmos aproximar do que nos causa medo, do que não queremos ver ou tocar, confrontar-nos-emos com o que não foi possível até aí e «portas de esperança se abrirão»”.
Este é, de facto, o caminho.

Região de Cister, 23.01.2014

Deolinda


 

 O mundo pequenino dos Deolinda fez vibrar o Cine-Teatro no último sábado. Casa cheia, boa disposição, muitas palmas. Duas jovens não resistiram ao ritmo das letras e músicas de Pedro da Silva Martins e dançaram no corredor. Este impulso mostra que, de facto, foi difícil manter pequenino o mundo grande dos Deolinda, um mundo de histórias que sublimemente contaram e cantaram.
Uma das histórias passou-se em Joanesburgo. Contou Ana Bacalhau que, ao decidirem ir cantar a esta cidade, foram avisados dos muitos perigos ali existentes. Não deveriam, pois, andar sozinhos na rua, falar com estranhos, sair do hotel, etc., etc. O medo foi tanto que resolveram não se afastar do local onde estavam hospedados. Sucedeu que arriscaram e foram a uma loja de tecidos. De repente, viram alguém a acenar-lhes ao longe. Resolveram disfarçar que não tinham reparado no indivíduo que teimava em fazer os mais diversos sinais. Mas este, sem desistir, foi-se aproximando. Os Deolinda, cheios de medo, apressaram-se a entrar no carro e quando estavam prestes a fugir, eis que o presumível gatuno lhes disse que queria devolver uma nota, porque tinha caído de um deles. Este episódio deu origem à canção “Medo de Mim”.
É assim um disparate ter-se medo. E foi sem medo que os Deolinda pisaram o palco do Cine-Teatro e abriram um ano de espetáculos que muito promete e para os quais estão todos convidados. Há que ouvir as histórias que os artistas têm para nos contar. A arte, mais do que ilusão ou ficção, é a realidade que nos faz sentir vivos e felizes. Sem medo.
Tinta Fresca, 20.01.2014
http://www.tintafresca.net/News/newsdetail.aspx?news=48a92951-f1c5-423e-aa11-db011cc0c965&edition=159

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Porque devemos votar

Conheci recentemente uma personagem que me encantou. Chama-se “senhor Silva”, é o protagonista do livro a máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe. Trata-se de um octogenário que vai viver para o lar de terceira idade “Feliz Idade”, depois de ter ficado viúvo e de ter tido um AVC. Os filhos, cuja preocupação nuclear é a carreira profissional e as exigências da vida moderna, revelam-se ao leitor como jovens incapazes de albergar a geração mais velha dentro de casa. O senhor silva sente-o e desespera-se. Viúvo, com muitas saudades da mulher, faz o balanço de uma vida cuja fase adulta começara no Estado Novo e se desenvolvera na Democracia. Fora sempre dedicado aos filhos e à sua Laura, que preferia “que nunca nos arriscássemos a nada. era o modo que tinha de fazer a sua parte pelo mundo. não bulir com alguma coisa. não arranjar nem querer confusões. por isso não gostava que eu discutisse com ela as coisas da política. queria que a política não fosse um assunto lá de casa. Haveríamos de apreciar a poesia, o folclore e uns fados, haveríamos de ter passeios aos domingos e brincar com os miúdos a crescerem e era assim a nossa vida, sem beliscar os tubarões que nos podiam ferrar. eu, apaixonado, enternecia-me com ela e deixava-me ficar porque lhe reconhecia prudência, uma sabedoria que vinha da família, de colocar a família no centro das coisas. eu deixava que a sociedade fosse apodrecendo sob aquele tecido de famílias de bem, um mar imenso de famílias de aparências, todas numa lavagem cerebral social que lhes punha o mundo diante dos olhos sublinhados a lápis azul” (p.156).

Foi por tudo isto que o senhor Silva denunciara à PIDE um jovem que se escondera na sua barbearia. Foi por tudo isto que, já mais tarde, em plena Democracia, o senhor silva, por medo de represálias dos sucessivos governos, evitou assumir as suas convicções políticas e se foi esquivando da intervenção pública. Mas essa timidez e falta de coragem com que viveu toda a sua vida levam-no a sentir uma terrível frustração no “Feliz Idade” – tão terrível que faz dó.

Nasci em 1970. Faço parte de uma geração que teve a grande sorte de não se ter desenvolvido no Estado Novo. Assim sendo, não percebo o receio que invade todos os que dizem “não gosto de política”, “não me interesso por política”, “a política não me diz nada”, “não sou de qualquer partido”. Criticar os políticos, assim como se criticam profissionais das várias áreas, como médicos, cabeleireiros ou carteiros, quando sentimos na pele a ineficácia dos serviços que prestam, parece-me menos mal. Mas recusar qualquer tipo de intervenção social, que é sempre cívica e, portanto, política, é anularmos os nossos direitos de liberdade, que as gerações passadas conquistaram com tanto custo.

A escolha é simples: ou seguir o caminho do senhor silva, um cidadão que apenas tratou de si e dos seus e, para “evitar sujar-se”, recusou sempre intervir e se refugiou no conforto fácil; ou seguir o caminho da cidadania ativa, da intervenção, da participação política, da recusa da abstenção.

Escolher o segundo caminho é, decerto, mais difícil. Mas se o senhor Silva pudesse voltar atrás, era o que faria.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Atuar socialmente

Dezanove anos. Chamava-se Bernardo. Bombeiro em Carregal do Sal. Filho único. Morreu ao serviço de todos nós, vítima da força do fogo cruel. Foi a sétima vítima. Antecedeu a morte de um outro bombeiro, desta vez de Miranda do Corvo. Até agora, foram oito as vidas ceifadas pelo fogo.
O país, sempre que recebe a notícia da morte de um bombeiro, sente uma dor imensa. Chora com as famílias das vítimas. Questiona a justiça nesta vida. Como é possível tal acontecer? São homens e mulheres que, voluntariamente, acorrem a salvar as florestas, os campos agrícolas, as povoações, as casas onde vivemos. Como é possível que uma ação tão nobre os conduza à morte?
Por muito que tente, o país jamais conseguirá enaltecer a ação dos milhares que este ano, mais uma vez, avançaram contra as chamas. Ou esquecer os que partiram, corações nobres, solidários, valorosos, que representam o que de mais humano há na sociedade. Contudo, a dor aumenta quando percebemos que os incêndios não dependem diretamente da falta de meios. São um problema social, de resolução difícil. Falo dos “incendiários”, aqueles que por vingança, por estupidez, por doença resolvem atear a fogueira fatídica. Falo dos adolescentes e jovens que andam à deriva, sem acompanhamento, sem atenção, sem objetivos. Falo dos irresponsáveis que lançam foguetes, ignoram a limpeza dos solos, queimam lixo indevidamente. Falo dos que se maravilham com as sirenes, as câmaras de televisão e toda a envolvência do fogo-fátuo no mágico ecrã. Assim sendo, os incêndios são um problema da sociedade, que requer a intervenção de todos. Essa intervenção reside na educação cívica, na transmissão de valores, na vigilância permanente dos que necessitam de apoio, na ajuda ao próximo. A essa intervenção chamo “ação social”, que, no fundo, é a ação humana com preocupações sociais. É a ação que cabe a todos nós desenvolver, sejamos polícias, psicólogos, autarcas, professores, pais… simples cidadãos. Para podermos sentir como nossa a dor dos que partem ao serviço da humanidade, temos de desempenhar o nosso papel na prevenção do problema que os faz partir.

http://www.tintafresca.net/
15.09.2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Pensar a escola em tempo de verão

Agosto é, por excelência, o mês das férias escolares. Sem aulas, testes, exames, horários e rotinas diárias, onde se encaixam os tempos letivos e não letivos, as atividades extracurriculares, horas de estudo e trabalhos de casa, pais e alunos aproveitam para descansar. Apesar de alguns sinais de que o novo ano de avizinha, quer pelas campanhas do “regresso às aulas”, quer pelas habituais reportagens televisivas feitas nas livrarias e grandes superfícies, onde se questionam os encarregados de educação sobre quanto vão gastar em livros e material didático (o que é, de facto, uma grande preocupação), a tendência é mesmo gozar o mês de agosto, de forma a carregar baterias para o ano letivo que se avizinha.
Curioso é, contudo, verificar como o tema da “escola” nunca está ausente das conversas de familiares e amigos, sempre que há uma criança ou um jovem por perto. Debaixo do chapéu de praia ou num encontro de café, alguém pergunta: Para que ano vai o teu filho?, Que área de estudos escolheu?, Que curso pretende tirar?, etc., etc.. E a partir daqui a conversa vai-se desenvolvendo. Depois de respostas como o meu filho passou para o 8.º, a minha filha vai tentar subir a nota a matemática, os pais contam experiências bem-sucedidas ou problemas mal resolvidos, partilham angústias, dão conselhos aos que os pedem. Porque, de facto, a melhor escola para pais está muitas vezes no conhecimento que se vai adquirindo de outros pais, que viveram problemas idênticos ou que passaram por angústias semelhantes. É, pois, percebendo o que falhou com outras crianças ou jovens que os encarregados de educação ficam mais esclarecidos, mais atentos aos problemas dos seus filhos e, desta forma, melhor se consciencializam do que podem fazer para levar a bom porto este enorme desafio que é a educação.

As conversas de verão são, assim, uma forma de começar a preparar o próximo ano letivo. No entanto, as boas ideias que nelas surgem não devem ficar enterradas na areia. Devem, sim, ser o mote para uma reflexão conjunta a levar para a escola e a partilhar com todos os agentes educativos, antes de o outono começar.

Publicado em 2 setembro de 2013 3em http://www.tintafresca.net/

domingo, 16 de dezembro de 2012

As lições que ficam


Lembro-me de há uns quinze anos uma turma queixar-se de uma professora de matemática. Diziam os alunos que ela permanentemente se fixava na janela e se esquecia deles. Eu, como diretora de turma, teria de resolver o problema. Mas ela estava deprimida e assustada, não com a crise dos tempos de hoje, claro, mas com outra, para a qual não encontrava solução. E eu também não sabia como ajudar. Os alunos não compreendiam. Para eles, ela era medíocre. E eu, que não resolvia o caso, também. “Não se brinca com um 11.º ano”, diziam. “Eu quero entrar em medicina”, acrescentava um. “E eu preciso de boa nota a matemática, que é a específica”, acrescentava outro. “Façam os exercícios do manual que ela vai pedindo”, dizia eu, sem mais inteligência. Mas face a esta sugestão, contaram-me logo a história do dia anterior: depois de terem entrado na aula, a professora pediu-lhes que fizessem os exercícios de uma determinada página e logo fixou o olhar na janela, no Outro lado que, decerto, apaziguava tudo aquilo que a emudecia. Passados minutos, um dos alunos perguntou-lhe:

- Afinal, qual é a página, stôra?

- Ah? Ah, sim… é… é uma qualquer.

Para ela, qualquer página servia. Mas para eles não. Porém, apesar desta adversidade, os alunos lá foram caminhando até ao fim do ano e até ao fim de muitos outros anos, com a determinação que não encontraram na professora. Contudo, hoje, já médicos, engenheiros, veterinários, também olham pela janela à procura do Outro lado, o lado que alivia as tensões maiores. E agora percebem a resposta da professora. Em certos momentos da vida, qualquer página serve para a nossa história. A falta de perspetiva de futuro a isso leva.

 Publicado no Correio da Educação - Edições Asa
 

sábado, 29 de setembro de 2012


O professor catedrático Alberto Amaral, ex-reitor da Universidade do Porto, deu a sua última lição na Faculdade de Ciências deste estabelecimento de ensino, noticiou a TSF, e confessou estar «envergonhado» com a herança que o país deixa «às novas gerações».

Ingressei na Universidade do Porto, no curso que escolhi em primeiro lugar, Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, era então Alberto Amaral o reitor. Eu estava decidida a estudar Linguística, Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Literaturas Africanas, Literaturas orais e marginais, Literatura Italiana, História Portuguesa, Cultura Portuguesa, etc., etc... para poder dedicar a minha vida ao ensino das letras, embora a tendência na altura já caísse para o lado da gestão, da economia e da finança. No entanto, o lucro fácil e a ascensão social canina ainda não era o pilar da vida da sociedade e a universidade do Porto, numa expansão extraordinária, deu-nos disso sinal. As letras tinham o seu lugar. Pudemos investir nas humanidades. Saímos professores orgulhosamente bem formados, para formar bem os nossos jovens.

Hoje, há que reconhecê-lo, as letras são menosprezadas e estão a ser abandonadas. As letras não enchem barriga, dizem-nos. Há professores a mais, há investigadores a mais… O país não pode com tanto. Claro. Claro.

Professor Alberto Amaral, também eu me sinto envergonhada com a herança deixada às gerações que aí vêm. No entanto, quero que saiba que o seu esforço não foi em vão.  No que me toca, luto e lutarei pelo vigor das letras, remando contra todos os que as acham inúteis. Ainda os hei de ver, no futuro, muito mais envergonhados do que nós, quando quiserem um professor que ensine as primeiras letras aos filhos e netos e tenham de o pedir emprestado ao estrangeiro, com juros insuportáveis.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Espanha

Málaga, meados de agosto de 2012. O centro histórico enche-se de gente no início da tarde. As mulheres vestem o traje de flamenco e os homens o de campino. O calor humedece-lhe as roupas. Bebe-se. Bebe-se muito. O pavimento das ruas, à força do suor e do álcool caído dos copos e garrafas, forra-se de uma substância pegajosa. Chap, chap… mas não é por isso que os sapatos não avançam, não circulam, não dançam. A catedral olha a força do divertimento. As discotecas, de portas abertas, convidam os menos lúcidos. Os bares e restaurantes oferecem tapas. Os turistas pedem pimentos, tortilha de batata e peixe frito. É a força do espanhol que sai à tarde para, à noite, redobrar-se na Feira Cortijo de Torre.

Valência, finais de agosto de 2012. A tomatina, em Bunõl, salpica de vermelho os que nela querem dominar. Quer seja por crer no tomate, quer seja por curiosidade, quer seja por acidente, os que percorrem as ruas no molho do fruto do tomateiro redobram o ânimo, engordam a coragem, enaltecem o ego. Os turistas riem-se com os espanhóis e estes fazem-nos rir. Não se sabe quem, no passado, atirou o primeiro tomate a ponto de criar a tomatina. Mas quem quer saber isso? Se alguém o fez, fê-lo bem. Basta ir ao Google ler as propriedades do tomate.

Madrid, setembro de 2012. A festa continua. Sem trajes, sem tapas, sem alegria. As praças e ruas enchem-se de jovens que gritam “Basta!”. São empurrados do parlamento pela polícia. Chegam também os pais e os avós dos que gritam “Basta!”. São igualmente empurrados do parlamento pela polícia. A televisão mostra uma mãe. “Os nossos filhos estão a trabalhar no estrangeiro. Os que não foram e têm emprego temem que ele acabe”, diz. É empurrada do parlamento pela polícia. O parlamento é mantido limpo, sem substância pegajosa nos acessos e sem tomate nas paredes. Igual ao de Lisboa. Outubro, 2012. Que a limpeza fique nos ecopontos e não nos pontos-chave da democracia.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O dia 8 de março e todos os outros dias

O dia da mulher continua por festejar. Festejar o dia da mulher é festejar a mulher. Mas festejar a mulher é transformar diariamente em festa a sua coragem, a sua força, a sua energia para carregar às costas pesadas cargas.

É a mulher que constrói o ninho, que o mantém quente, que o repõe no sítio após uma rabanada de vento. É a mulher que dá à luz, que traz alimento às crias, esgravatando na terra e mergulhando no mar, enquanto o companheiro se aventura em altos voos. É a mulher que chora quando as crias partem e lhe deixam uma pena como recordação. É a mulher que é destruída com as chuvadas ácidas provocadas pelo homem. É a mulher que vê o ninho cair quando o homem chega e corta, com um machado, a árvore pela raiz.


A mulher é sempre mulher, tanto hoje como nos outros dias. Mas poucos sabem disso.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

De casa à escola

O percurso casa-escola e escola-casa é feito diariamente por milhares de alunos, pais e professores, com uma certa fé de que o que vai acontecer a seguir vale a pena. Nesse mesmo percurso, tudo pode ser visto, caso o viajante não vá alheado do mundo, absorto nos seus pensamentos, a caminhar como um autómato, o que por vezes acontece.
Em 1991, Maria vinha da escola no autocarro, distraída, muito distante dos outros passageiros, embora encostada a eles. Com dezassete anos, a vida espraiava-se à sua frente e a força do corpo para realizar o impossível aumentava em cada instante. Embora ciente da imperfeição do mundo, dado o facto de a mãe ter saído de casa meses antes, levando-a a ela e à irmã, por não aguentar mais os maus tratos do marido, Maria tinha esperança de que a separação fosse o início de uma nova vida para todos.
Subitamente, a meio da viagem de autocarro, passou por um acidente que interrompeu os seus pensamentos. Ambulâncias, polícia, uma multidão a assistir chamaram a atenção dela e dos passageiros do autocarro, que logo se colaram ao vidro, comentando, lamentando. Maria acabou por não dar demasiada importância à situação, frequente em todos os percursos, e voltou aos seus pensamentos. Momentos mais tarde, veio a saber de quem eram os corpos que estavam a ser retirados do passeio: o da mãe, assassinada pelo pai com um revólver, e o do pai, que se suicidou em seguida com o mesmo revólver. Ao dirigir-se ao hospital, para onde os tinham levado, uma senhora, num guiché, disse-lhe que a mãe já entrara sem vida e que o pai estava em coma. Tempos mais tarde, num tribunal, o juiz colocou em cima da mesa a arma que tirou a vida aos seus pais. Hoje, Maria visita-os no cemitério. E quando a jornalista, no dia em que é lançada uma campanha nacional para combater o crime da violência doméstica, lhe pergunta, em frente às câmaras, se ela perdoou ao pai, decorridos vinte anos, ela diz que sim. “O amor de filha não se perde”, afirma. A forma como as mãos de Maria se contorciam a descrever a tragédia mostrava bem o sofrimento por que passou. Ficar sem pai e mãe no mesmo dia por culpa de um deles só pode ser suportado por alguém feito de amor. E saber perdoar é uma questão de amor. E de fé. Só estes podem vencer o ódio.
Num destes dias, Alessandro deslocava-se de casa à escola, de autocarro, numa cidade italiana, absorto nos seus pensamentos, quando viu de repente um cartaz publicitário de uma marca de roupa, com o papa Bento XVI a beijar na boca o imã egípcio Ahmed el Tayyer. Mais à frente, viu um outro cartaz da mesma empresa, desta vez com Obama a beijar Hugo Xávez. Incrível. E ainda um outro, com Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, e outro, com Mahmud Abbas e Benjamin Netanyahu. O slogan a acompanhar a publicidade era “O ódio nunca é apaziguado pelo ódio e só o anti-ódio pode apaziguar o ódio.” No dia seguinte, Alessandro deixou de ver os cartazes. Os anúncios "UNHATE" (não ao ódio) foram, pois, retirados. A polémica tinha-se instaurado. O Vaticano anunciara uma ação legal contra a fotomontagem, reacendera-se o debate em torno das campanhas polémicas, condenara-se a marca de querer chamar a atenção a todo o custo. Ora, ninguém beija quem não quer. O beijo forçado não é um beijo. É um encosto repugnante!
Os efeitos de se verem inimigos a beijar-se na boca ainda duram. A polémica está longe de abrandar.
O que nos ensinam as viagens de Maria e de Alessandro sobre o amor e o ódio? Que têm estas duas histórias em comum? Possivelmente apenas o facto de ambas acontecerem no percurso casa-escola ou escola-casa. Ou talvez mais… Maria continua a beijar a campa do pai, por amor, enquanto outras mães são espancadas e mortas pelos próprios maridos, num silêncio duradouro. Alessandro procura perceber o que aconteceu aos cartazes, porque foram retirados na hora e porque se estendeu uma passadeira vermelha tão comprida ao ódio, com holofotes a iluminá-lo.

Texto publicado hoje no Correio da Educação
www.asa.pt/CE/

sábado, 17 de dezembro de 2011

Postais de Natal

The protester, o manifestante, foi a personalidade do ano, eleita pela Time. A capa da revista mostra a figura daquele que foi para as ruas em 2011, que se mostrou sem pejo, que se expôs aos perigos das balas, e que gritou: democracia! O manifestante é todo o anónimo que desafia a podridão dos factos consumados. É a coragem viva que defende a voz do pobre, do excluído, do fraco e do impotente. A manifestação das ruas é tão verdadeira como a água que ainda vai correndo pelos rios. É cristalina. Segue o seu curso natural. Dá vida àquilo que rodeia. Parabéns, manifestante!
A capa da revista Time, com o rosto do anónimo das ruas e vielas, é o melhor postal de Natal que podemos receber.

Há, contudo, outros postais extremamente infelizes que nos chegam a casa. São os que trazem o rosto dos belos rapazes e raparigas que ganham a vida pelas bonitas ideias que vendem em certos programas de televisão. Manifestantes de estúdio, vão aos debates ou programas afins dos vários canais informativos para se exporem às luzes e às câmaras, bem maquilhados, bem penteados e bem vestidos, e, perante as câmaras gritam, capazes até de morder: salvem os pobres! Ao mesmo tempo que enrouquecem, os focos de luzes transforma as suas figuras angélicas em lindos postais. Quem os recebe fica decerto feliz. São postais de Natal perfumados e rubricados, que servem para enfeitar o pinheirinho, tão despido de luz. Depois da época natalícia, podem seguir para a reciclagem para serem, quem sabe, usados em novas edições da Time.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

24 de novembro

Desde criança que sei que os meus pais se casaram no dia 24 de novembro. Parabéns! Aos 19, fiquei a saber que a minha sogra nasceu no dia 24 de novembro. Parabéns! No ano passado, percebi que o dia eleito para a greve geral é o 24 de novembro. Para… ?

Contudo, sei de outras coisas. A 24 de Novembro, os meus pais iniciaram um projeto de vida, a minha sogra deu início à sua vida mas a greve geral tem-se ficado pela meia-noite. No ano passado, não chegou a ir até ao dia 25. Será que a de hoje vai mais além? Trará o fim da corrupção? Da fraude? Da mentira? Da desonestidade? Do enriquecimento ilícito? Da compra da Justiça pelos ricos? Dos concursos públicos viciados? Da incompetência dos que se julgam competentes? Da fuga ao fisco? De todos os empecilhos à realização pessoal, social e profissional dos portugueses?

Como não há duas sem três, que venha a de 2012. Mudam-se os governos, passam os anos, a greve repete-se!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Simplesmente bom e bem feito

A melhoria das condições de vida é um dos fatores que tem levado o homem a severas transformações sociais, económicas e até políticas. E é para isso que ele luta e trabalha. Por detrás dessas condições de vida está a ideia de felicidade. No fundo, o que o move é a felicidade. Mas, por vezes, ela não está onde julga estar – no mais complexo, no mais acessível, no mais confortável. Também não está na precariedade, na fome, na ignorância, claro. Pode simplesmente estar naquilo em que se acredita ser bom e bem feito.

Quando eu andava na escola primária (na altura assim designada), os alunos usavam bata para disfarçar as roupas que traziam dos irmãos ou dos vizinhos mais abastados. Note-se que já ninguém ia roto ou descalço. Mas as camisolas eram mais curtas nas mangas e as calças tinham em baixo as marcas de bainhas descidas vezes sem conta. Quando se rasgavam nos joelhos, levavam um remendo, às vezes em forma de boneco. Nos intervalos, corria à volta da escola, sem gradeamento, no meio do pó branco, chapinhava nas poças de água, subia a um ou outro morro e ia até à casa de banho, pequena, sem apetrechos. O lanche era pão com manteiga que levava de casa e leite aquecido pela auxiliar numa grande panela de alumínio, servido em copo de plástico por uma concha. Todos bebiam leite e comiam pão. Houve um ano em que serviram bolachas de água e sal e queijo, mas nem todos gostavam. As crianças da altura estavam mais habituadas a sopas e a outras comidas quentes. Frio, só mesmo o pão. Não havia bolicaos nem donuts nem kinders. A pequena bolacha Maria aquecia-se na boca, ao ser mastigada devagar. Ia-se a pé para a escola de pasta de uma só cor: castanha, azul, ou preta (na altura não havia mochilas com super-homens ou barbies). Sendo uma pasta, servia para levar os livros e cadernos e era o que bastava. As horas dentro da escola, por vezes com chuva a cair em certos cantos, eram passadas a ler textos (todos os dias e em vários momentos), a fazer exercícios de compreensão textual, exercícios de caligrafia, exercícios de ortografia, redações e mais redações, reduções e outros problemas de matemática. Aliás, não havia uma tarde em que não se resolvessem problemas de matemática no quadro, lembro-me bem (e eu que não gostava de matemática! Paciência, minha filha!). Às vezes, às sextas, fazía trabalhos manuais (ou de expressão plástica, como queiramos chamar). Tudo isto só com uma professora. Não conheci outros na escola primária.
A música era dada no recreio, quando as rodas se faziam acompanhar por canções ritmadas, que já eram cantadas no tempo dos pais. A natação era treinada quando corríamos à chuva. A atividade física era muito acentuada: vários quilómetros de corrida e de bicicleta, subida a árvores e a telhados de casas velhas, cambalhotas no chão do quarto, nos intervalos dos trabalhos de casa, vários saltos a pé coxinho e metros e metros de saltos em altura. Não conseguia engordar à custa de tanto treino. E quanto mais fazia mais o corpo pedia.

Deus nos livre voltarmos a este tempo!
Hoje é bom ver as escolas coloridas, as mesas de trabalho coloridas, as mochilas coloridas, os dossiês, estojos, pastas, canetas coloridas. As roupas coloridas e sem remendos. As casas de banho bem apetrechadas. Os recreios vedados, vigiados, com escorregas. Horas marcadas para a atividade física, para a música, para o inglês, para o judo, para as TIC. Nas aulas, espaço próprio para as expressões (plástica, dramática…). No fundo, espaço para vários saberes, de vários agentes. Nas mochilas, espaço para materiais escolares, manuais escolares, fichas de trabalho para as aulas, para casa. Em casa, espaço para as fichas das férias…

O investimento foi grande. O esforço tem sido grande.
Deus nos livre sairmos deste tempo.
O que aconteceria se voltássemos ao tempo do trabalho efetivo de leitura, de escrita e de matemática nos cadernos diários e no quadro preto, do simples pão com manteiga e do leite aquecido na panela? E das batas? E das poças de água? E da atividade física feita nas ruas e vielas?
Não aguentaríamos. Ninguém, com consciência, estaria preparado para isso. Nem eu, nem os professores, nem os pais, nem a sociedade. Só mesmo as crianças, porque nasceram simples e não recusam a simplicidade do que pode ser bom, quando bem feito. Mas essas não têm voto na matéria.

Texto publicado no Correio da Educação
ce@asa.leya.com

sábado, 8 de outubro de 2011

Soneto do nosso tempo
com rima interpolada e emparelhada nas quadras
e cruzada nos tercetos.
Verso decassilábico.


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BANCAR R O T A

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Steve Jobs

Cada manhã cada mulher e homem inventam o seu dia até chegar a noite.
Depois passam a tarde a rever o que fizeram até àquele minuto.
Este vai-se escoando sem dar de si, desmaiado.
É um detalhe que passa despercebido.
E logo chega a noite, que entra de mansinho.
Ninguém quer que ela entre.
Ela bem bate à porta, com batidas ritmadas.
Mas ninguém mexe no trinco.
Até que se cansa e deixa de bater.
Só que a noite não precisa que lhe abram a porta para entrar.
Entra e serve-se de cada homem e de cada mulher.
E assim passou o dia, entre uma manhã de projetos e uma noite que não se quer projetada.
A tarde foi de dormência.
Steve Jobs disse um dia a alguém:
“O seu tempo é limitado.”
“Tenha coragem de seguir o seu coração”.
Steve Jobs gostava de detalhes.
Jamais a noite o trincará.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Duas formigas

Numa varanda cheia de sol, duas formigas carregam uma casquinha verde.
Grande o esforço, a motivação, a persistência.
Para onde a levam?

Parece pesado o que transportam.
Ou são os restos mortais de um inseto, ou uma pequena semente, ou qualquer outra coisa.
E lá seguem elas, arqueadas. Se fossem humanas, pingariam suor.

Hum…

A varanda está limpa, sem folhas caídas, sem pó da rua….
O que fazer com as formigas e a carga? Dar-lhes um chuto, um sopro ou pisá-las?
…
Deixá-las ir.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Meses depois

Parei de escrever neste espaço por uns meses. Razões? Muitas e muito poucas.
Foi precisamente no tempo de um verão pouco caloroso, pouco simpático.

Há uma mãe que é confrontada com a doença de um filho. Tão depressa cai ao chão como tem de se erguer. O movimento é brusco e pesado. Mas logo arranja forças para levantar as mãos ao céu e perguntar: porque não vieste para mim, ó doença? E ela lá da terra, responde: porque a cruz de Cristo, assim, é maior.

Há uma portuguesa que vai ver um jogo entre o Benfica e o F C Twente, a pedido do filho. O verão aqueceu um pouco, nessa tarde. Saem os jogadores para a arena. A portuguesa, adepta de outro clube (vestígios de uma infância em que todas as crianças sabiam gritar goooooooooolo, na esperança de virem a marcá-los na fase adulta, dentro de uma baliza que se chama vida), torceu pela equipa do seu país, pelos jovens portugueses. Mas qual não foi o seu espanto quando constatou que a jogar com a camisola encarnada não estava um único jogador português… No fundo, estivera no Estádio da Luz a assistir a uma partida entre duas equipas estrangeiras, sem o saber. Nesse momento, o sol refugiou-se nas colinas. É triste ver que os nossos jovens não podem marcar golos em Portugal, e que tenham de procurar balizas (vidas) lá fora.

Há uma cidadã do mundo que viaja até Macau para um encontro de Língua Portuguesa. Na universidade de Macau, onde decorreu o simpósio, fala-se português; nas ruas e praças, a identificá-las, há placas em português; a escola portuguesa, revestida de bonitos azulejos, tem avisos, livros e inscrições em português. Vestígios da nossa governação durante centenas de anos. Mas os taxistas não sabem português, os rececionistas dos hotéis também não e muito menos os milhares que lá moram, excluindo-se aqui alguns emigrantes portugueses, como de resto acontece noutros lugares do mundo. A questão é: saberá o povo lusitano repor as placas em português, quando estas, de velhas, caírem ao chão?

Seria bom que percebêssemos o quanto útil é pegarmos todos numa pá e cimento para reconstruirmos o que é nosso, a começar pela língua portuguesa no mundo. Atrás desta, vem a cultura, e a seguir a alma. E é a alma de ser português que valoriza os portugueses que jogam (e também os que ficam a ver).

Desculpem a redundância do adjetivo “português”. Mas é um forma de dizer “estou de volta”. Tal como o outono.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Copiar

Copiar

Copiar num teste é desonesto, todos nós sabemos.

Copiar é uma prática errada que começa logo no ensino básico, acentua-se no ensino secundário e, se não for desincentivada pelos professores, que devem imediatamente anular perguntas, grupos de perguntas ou mesmo testes, e ter uma conversa séria com os alunos, continua a verificar-se mais tarde, no ensino superior. Se é compreensível no básico, em que a criança e o jovem procuram afirmar-se desafiando as regras estabelecidas, como forma de “dar a volta” ao adulto, para mostrar que são mais espertos, que controlam tudo e que se desenrascam na perfeição, já o jovem universitário devia pensar que copiar é um sinal de fraqueza, desonestidade e fraude. Devia, ainda, perceber que assim não vai longe, porque não avalia efetivamente os seus conhecimentos e competências, o que é imprescindível para diagnosticar as suas dificuldades, de forma a colmatá-las. Estamos a falar de crescimento pessoal e social dos indivíduos.

Mas quando se tira uma licenciatura e se continua a copiar nos testes e provas exigidas pela vida académica ou profissional, sem que haja punição, que mensagem se transmite aos estudantes portugueses no geral?

Aos que estudam e se esforçam, sem copiar, diz-se “que parvo que és!”

Aos que não estudam muito, nem nunca estudaram, mas também não se dão ao trabalho de fazer cábulas, pergunta-se “porque não copias, para passares ou subires a média?”

Aos que copiam, já crescidinhos, sussurra-se “que chico esperto que és!”.

É preferível, de facto, e vistas as coisas linearmente, ter um país de chicos espertos em vez de um país de parvos. Mas não nos esqueçamos que estes “constroem” e os outros “destroem”. Basta o sopro de um chico esperto para desmoronar um país de parvos.

sábado, 4 de junho de 2011

A violência

Primeiro surgiram as imagens filmadas por um jovem, inicialmente publicadas por ele no facebook. Do domínio privado passaram ao domínio público num instante. Toda a gente as viu nos canais de televisão e na internet. Toda a gente virou a cara perante tamanha violência: uma adolescente a ser brutalmente espancada por duas jovens. Toda a gente sentiu repulsa.
Seguiu-se o vídeo sobre militares a agredirem brutalmente um colega. Durante dias, encheram os ecrãs por todo o lado. As falas dos agressores foram transcritas, para que nada escapasse aos telespectadores. Todos viram. Todos se agoniaram. Todos se indignaram.
Em terceiro lugar, mas não se pense que lhes serve a medalha de bronze num pódio de violência, cobardia e demência, chegaram as imagens facultadas por um vídeo amador que, do lado de fora, conseguiu captar a violência existente numa creche ilegal. A câmara não viu o que se passava lá dentro, no meio da casa, no meio do coração das crianças, no meio do peito das mulheres adultas, escolhidas pelos pais para respeitar e amar os seus filhos. A câmara simplesmente conseguiu filmar uma mulher louca a dar socos a crianças pequenas. Portugal, habituado a ver estas imagens deploráveis vindas de países estrangeiros, ficou horrorizado, chocado, à beira de um ataque de nervos.
As imagens entram, de facto, na casa das pessoas, sem pedir licença. Uma, duas, três vezes. E até mais. À primeira vez, os espectadores viram a cara para o lado. À segunda, já conseguem ver mais um pouco. À terceira, ganham coragem para ver tudo. À quarta já os seus olhos estão habituados. E a habituação leva à leveza. Do horror passa-se ao mau. Da violência punida pela lei, chega-se ao conceito de agressão própria “dos adolescentes mais rebeldes” ou “dos militares habituados a uma certa cultura de agressividade” ou ainda dos “loucos ainda por diagnosticar” (coitados!).
A familiaridade advinda da repetição desenfreada das imagens leva a uma reflexão mais mansa, a uma capacidade de atuar mais permissiva, a uma maior desculpabilização do que não tem desculpa.
Toda a gente viu estas curtas-metragens de horror. Toda a gente reagiu. E a seguir?
Poucos são os que olham à sua volta e procuram analisar o que se passa fora do ecrã da televisão, questionando-se: como educo os meus filhos? O que faço para travar comportamentos violentos? Como interajo com os educadores/professores que os acompanham diariamente? Sou exigente com eles ou deposito-os de manhã na sua sala e vou buscá-los à noite, sem coragem para a avaliar o dia? Qual a diferença entre a agressividade própria de um jovem (militar ou não) e a violência das suas ações? Como tutor, pai, professor, comandante, etc., quantas montanhas movo para acompanhar a formação pessoal e social do meu educando?
O problema está fora dos ecrãs. O problema está na casa de cada um, na escola e nas instituições. Mas é mais fácil desviar a cara perante as imagens que outros filmaram, para acabar por aceitar a banalidade proporcionada por um canal de televisão que concorre com o vizinho. A discussão fica para mais tarde, numa sociedade que tende a afundar-se na ignorância e na hipocrisia.

domingo, 15 de maio de 2011

Solução para os problemas

O problema, a questão difícil, o entrave, a dificuldade, que precisa de um tratamento racional para ser resolvido, chega a casa de todos, sela ela palácio ou casebre.

Chegou a França, país orgulhoso de si, que gosta de manter no exterior a imagem condizente com o seu nível sócio-cultural e económico...

Chegou a França e manchou a sua imagem.

E chegou, não trazida pelo vento, mas por um nome sonante da esquerda francesa, de um apoiante do povo, crente na igualdade de oportunidades, na justiça, no bem comum, na união da Europa.

Dominique Strauss-Kahn surge hoje na comunicação social não por ser o presidente do FMI e candidato à presidência da França nas eleições de 2012 mas sim porque foi preso em Nova Iorque por agressão sexual. Foi denunciado por uma funcionária de um hotel, a alegada vítima.

Ele criou um problema na vida desta mulher de 32 anos. Ela, denunciando o crime, também lhe criou um problema.

O problema de Strauss-Kahn é fácil de resolver. A imprensa de hoje adiantou uma pista para a solução: embora de esquerda, Strauss-Kahn gosta de ostentação e de riqueza. Ou seja, tem dinheiro, muito dinheiro. Pode pagar cauções e contratar os melhores advogados.

Já a funcionária de hotel, a que foi agredida sexualmente, jamais conseguirá resolver o problema que viveu. O horror, a humilhação, a violência física e psicológica que a assolaram não têm remédio.

O político que defendia o povo virou-se contra ele. Sim, porque ela é uma das do povo, das que Strauss-Kahn teoricamente protegia nos congressos e campanhas, como forma de fazer currículo profissional e político. Contudo, a realização das ideias de justiça, verdade e solidariedade caíram por terra, na prática, dentro de um hotel, longe das luzes da ribalta.

Não haverá equidade na resolução destes dois problemas criados hoje, simplesmente porque um caiu num palácio e o outro num casebre.

Os problemas que surgem nos palácios resolvem-se. Basta pintar as paredes com tinta fresca. Os que aparecem nos casebres corroem as paredes, sendo estas de carne e osso.